As medidas de controle da pandemia deviam ter sido decretadas um pouquinho antes dele ter saído de dentro de mim

Conto originalmente publicado na

A pandemia devia ter iniciado na terça-feira de carnaval de 2018. Um pouco depois do nosso beijo na Praça São Salvador, no fim do bloco. Assim que ele avisou — como se fosse uma grande coincidência — que seu prédio ficava na rua detrás, eu corri para as minhas amigas, anunciando, um pouco alto demais, que ia transar. No momento em que elas comemoravam minha primeira foda de carnaval e ele escondia o rosto entre as mãos sorrindo, aí, sim, o primeiro caso do Brasil devia ter sido confirmado.

Fico imaginando outro desfecho para a nossa história se, enquanto caminhávamos…


era, sim, uma ótima ideia ter um sugador de clitóris me acompanhando em minha jornada pandêmica

Enfrentei meu medo, digitei o endereço da loja online, decidida, fui na seção específica, encontrei o que procurava e cliquei. Hesitei um pouco, mas depois de conferir pela décima vez que não haveria nenhum problema para carregar e que não tinha deixado passar nenhum detalhe, apertei o botão comprar.

Fiz meu cadastro o mais rápido que pude para não desistir, só me demorei um pouco mais no endereço, porque não poderia haver nenhum, absolutamente nenhum, erro. …


Eles não precisam ser perfeitos, não precisam ser completos, nem sempre é preciso que sejam explícitos

Fonte:

Texto originalmente publicado na

Quando pensei em escrever esse guia de contos eróticos para mulheres (e homens) pela primeira vez, achei que seria engraçado usar a palavra “completo” para algo que é tão amplo e ilimitado como o erotismo, especialmente com todas as possibilidades de acesso da internet. Mas quanto mais conversava com amigas leitoras, mais me dava conta de que muitas coisas poderiam ser ditas para alguém que nunca se aventurou ou pouco consumiu de narrativas eróticas.

Este Guia Completo de contos eróticos para mulheres, então, é antes de tudo um convite meu, escritora e leitora, para…


Não sei porque a música da bicicleta e a louça me fazem pensar neles dois

Ilustração:

Quando dou o primeiro passo para frente ainda penso no que o compositor disse. Que ele escreveu a música Bicycle andando de bicicleta, cantarolando as palavras na cabeça como que girando uma correia pelo caminho. Olho para a pilha de louça e penso em pular essa parte, mas que diferença existe entre a bicicleta e a louça? Pego a esponja. Sei que não adianta me apressar para escrever, porque cada uma dessas palavras está sendo escrita enquanto a espuma aparece sobre a superfície dos copos e pratos sujos. Eu entendo o que ele quer dizer.

O pensamento que insiste em…


não sou boa com caminhos e memórias, e ser boa em encontrar caminhos parece cada vez mais irreal

Querida São Paulo,

Nunca mais caminhei pelas mesmas ruas. Essa constatação parece estar rondando a minha cabeça aos pouquinhos nos últimos dias, como um animal que caminha lentamente. Em todas as viagens de carro dessa semana, me forcei a abandonar a tela do celular e investigar a paisagem na janela. Reconheci, sobretudo, nomes de farmácias e pensei que algumas ruas se pareciam com algo que já vi. Mas não sou boa com caminhos e memórias, e ser boa em encontrar caminhos parece cada vez mais irreal.

Parece que meus caminhos sempre me levam para longe de você. Parece que você…


Não sei quem é você, se você gosta ou não de Piña Colada, ou o que pode fazer com essa carta

Querido ouvinte,

Tem duas histórias sobre cartas e mensagens de amor que gosto muito. Uma delas, na verdade, é mais uma lembrança da minha infância, das férias escolares na casa da minha avó materna, no interior do Maranhão. Na zona rural de um estado do nordeste do Brasil, na década de 90, o rádio tinha seu lugar especial. Do momento em que acordávamos, ele era ligado e dava a toada de todo o dia. Conhecer um locutor era como ter um amigo famoso e conseguir que um pedido tocasse na rádio era nosso desejo diário. …


Há alguns dias, tenho pensado que preciso descobrir uma forma de falar novamente sobre amor

Querido Arthur,

Tenho achado que, em algum momento dessa longa amizade, houve um dia em que você disse que eu dava muita centralidade aos relacionamentos. Sei que você sempre duvidou da minha memória e da forma como escolho relembrar as coisas, então, antes que reclame, admito que talvez você nunca tenha dito isso. Talvez não com palavras, talvez não com essas. É possível que eu tenha entendido de algum comentário sobre outra coisa qualquer que você dizia enquanto avaliávamos o prato do dia do boteco da esquina. Uma coisinha rápida, antes de o garçom chegar para anotar nossos pedidos. …


É estranho fugir apertando o abraço ao redor de um corpo. Mas é o que a gente faz.

Existe essa cena, esse recorte. Um gif da memória. Há alguns meses começou a aparecer. De preferência em domingos ou em horas da madrugada em que ainda não me dou o trabalho de nomear um dia da semana. Deve ter mal cinco segundos de duração. E ainda que eu possa rever todo o filme que vem antes e depois da cena, minha cabeça escolhe repetir em loop os mesmos cinco segundos.

Apareceu a primeira vez como algo que eu finalmente podia entender. Não sei o que desencadeou as ligações nervosas que me fizeram recortar cinco segundos de uma tarde de…


Ele estava preparado para todas as analogias com papéis familiares, mas não para…Business!!!

Hoseok é foda, Yoongi pensava durante o almoço, ainda muito pistola pela gravação daquela manhã. E o barulho alto da risada dele, que também almoçava na mesma sala de espera e participava da conversa com os mais novos, não ajudava em nada.

Ele tava puto e queria que Hoseok soubesse disso, mas o outro simplesmente continuava rindo e no máximo olhava pra ele no meio de uma gargalhada, como quem dizia: “dá pra acreditar nas merdas que esses guris falam?”. …


Desde que vim pro Sudeste, aprendi a ter vergonha da violência que me gestou

Ilustração de: Bruna Lima ()

Só quando vi Adelaide, poeta nordestina, no palco, recitando mulheres mortas me ocorreu que esse meu defeito de falar de dor e tristeza talvez fosse regional. Enquanto ela falava de corpos assassinados e violentados, me perguntava por que era inédito, por que todos os anos, desde que mulheres sobem em palcos, não repetimos aqueles nomes? Desde que vim pro Sudeste, aprendi a ter vergonha da violência que me gestou. Fui melhorando a língua, os gestos, viajei menos no Natal.

Uma tia uma vez mandou mensagem, dizia que sentia saudades. Respondi que também. E ela pareceu emocionada, se é que é…

Seane Melo

Jornalista e escritora maranhense, autora do romance “Digo te amo pra todos que me fodem bem”

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